“Eu não gostava de andar de chinelo com meia e muito menos de dormir de conchinha, juro.”
Todas aquelas vezes que você passava umas 7 horas da manhã neblinosa pra ir comprar pão na padaria da esquina eu te observava pela janela. Focava nos teus pés, era diferente para mim andar de chinelo com meias. No meu ponto de vista tudo se resumia como uma mania, uma estranha mania. Parecia um tanto confortável para chegar no ponto de andar com aquelas esquisitices no pé. Não importa se estivesse frio, calor ou caindo meteoritos do céu, que seja, aquela tentadora garota que por sinal adorava pão estaria com chinelo e meia. Mas é claro que permanecerei calado, minhas manias nunca entraram no padrão de “normalidades”. Em todos meus anos de pura babaquice nunca vi alguém tomar pelo menos um copo de água antes de dormir. Mamãe me disse que desde quando eu tinha lá pelos meus sete, oito anos eu fazia isso.
Era sexta-feira, eu acordei cedo como de costume para caminhar pela praça perto de casa com meu cachorro, antes que eu pude sair mamãe me pediu pra ir à padaria comprar pão para ela. Ela tinha acordado com uma forte gripe, espirrando e tossindo incessantemente. Peguei o dinheiro que estava sobre a mesa de centro da sala. Enquanto caminhava olhei para trás e me deparei com a garota com a mania estranha. Ela estava a uns treze metros de mim, mesmo longe pude observar o teus pés com meia e chinelo. Ela fez um gesto com a mão de “Olá”, assenti. Prossegui até a padaria da esquina. É bizarro me referir à ela usando as expressões “A garota com manina estranha ou a garota que usa chinelo com meias” Eu queria saber teu nome. Eu entrei na padaria e logo ela entrou em seguida. Ah, e teu nome é Sophia, com “ph” ela completou. Começamos a falar sobre o delicioso cheiro que vinha da padaria, parecia pão-de-mel, não sei… Mas era delicioso. Nós nos sentamos e começamos a tentar decifrar de que era aquele cheiro maravilhoso. Porque mesmo estamos falando sobre esse cheiro? Ela questionou. Não sei, talvez seja a falta de assunto, eu respondi. Na verdade eu tinha milhares de assuntos para falar com ela, e também tinha milhares de perguntas, e uma delas era perguntar o porquê de ela usar chinelo com meias, mas não o fiz, eu não queria ser indiscreto. Fiquei olhando para os pés dela durante alguns segundos e ela então perguntou: Você também acha isso estranho não é? Fingi que não havia entendido e perguntei: Oi? O quê? – Desviei o olhar. Essa mania, usar chinelo com meias, que bizarro. Não, claro que não – Gaguejei. Ela me olhou como se estivesse querendo dizer: “Não se faça de desentendido” Todos acham isso estranho, mas eu não. Eu me sinto bem assim, não sigo os padrões que a sociedade impõe, não me agrada ser normal, mas afinal, todos têm suas esquisitices e manias, não é mesmo? Eu apenas confirmei com a cabeça, pensando no que eu costumava fazer quando eu tinha sete, ou oito anos, sei lá, apesar de não aparecer tão estranho quanto usar chinelo com meias. Nós nos despedimos e não supri minha vontade de perguntar o porquê daquela mania. A gente passou a se falar, todos os dias, no mesmo horário, no mesmo lugar, sentindo o mesmo cheiro. Aquilo já tinha virado rotina, uma rotina da qual eu não me importaria de ter por anos. Eu já não achava tão estranho as manias de Sophia, talvez seja porque eu esteja convivendo com aquilo todos os dias, ou talvez porque são as manias dela. Numa certa conversa, ela me disse que adorava dormir de conchinhas, mesmo que sozinha. Eu não poderia ter achado aquilo menos estranho, eu não gosto de dormir de conchinha, quanto mais sozinho, se é que isso é possível. Sophia fazia-me sentir-se bem como não me sentia a um bom tempo, ela era um remédio para todas as minhas tristezas, ou até mesmo um remédio que me fazia esquecer todas elas. Depois de muito tempo convivendo com aquilo eu posso dizer: “Sim, eu me apaixonei por uma garota que costuma usar chinelo com meias, gosta de dormir de conchinha até mesmo sozinha e que ama pão, as manias delas, são minhas agora.” Eu nunca soube o porquê de todas aquelas manias e provavelmente nunca saberei, não passam de simples esquisitices que a fazem bem, e que agora me fazem também.
Eu fiz de você uma mania para mim. - Leonardo Maciel e Junior
(ourdrafts)
Você ainda está aqui, de alguma forma, você ainda não submergiu entre meus pensamentos… Entre os espaços do meu coração. Lembro-me ainda do seu último sorriso, pequenos instantes que se eternizaram em mim. Eternizaram-se em minha carne feito tatuagem, assim como meu amor por ti. Que não permite com que você se vá. As lágrimas já estão secas, a fome sumiu, os sorrisos também desapareceram, mas você amor, você tornou-se saudade cravada em mim. Saudade esta que eu sei que você também sente, as pessoas me falam de ti… Como se eu já tivesse o superado. Ah, é uma pena que elas não saibam o quando dói ouvir seu nome. É uma pena mesmo amor meu, que elas me obriguem a escutar fatos sobre ti. Como se eu não fosse capaz de conhecê-lo, como se eu não fosse capaz de me lembrar-se da beleza do teu sorriso, do encanto de teus gestos, da ternura de seu toque. E juro, juro que fiz mais do que pude, tentei de todos os modos encontrar uma borracha tão poderosa, capaz de apagar-te do meu coração. Em uma noite cheguei até a cair de joelhos e implorar, implorar com todas as forças que alguém lhe tirasse dos meus pensamentos. Implorei, implorei, implorei e depois chorei feito uma criança boba. Chorei daquele jeito que você dizia ser “doloroso” de se ver, a infelicidade maior veio quando algumas horas se passaram e as lágrimas acabaram. Eu estava seca, e você não estava ali, para me acalentar. Você ainda era para mim apenas um rastro de saudade que se espalha em meu corpo, em minha mente, fazendo com que eu enlouqueça a cada instante apenas por saber que de agora em diante, você será apenas isso. Um pedaço do meu passado que ainda reflete em meu presente.